13.7.09

Band of Brothers

(2001, minissérie de Tom Hanks e Steven Spielberg)



Não me arrependo por ter demorado tanto pra ver "Band of Brothers". Neste intervalo de 8 anos eu pude me divertir com todo tipo de filmes e séries, aproveitando o que eles tinham pra me oferecer. Agora, depois de "Band of Brothers", nada mais faz sentido. O patamar é outro. Tudo aquilo que eu entendia por heroísmo, coragem, lealdade, honra, sacrifício, caráter, amizade... foi tudo por água abaixo. Na área dos épicos edificantes, "Band of Brothers" faz "O Senhor dos Anéis" parecer tosco. Na área dos registros da II Guerra, "Band of Brothers" faz "O Resgate do Soldado Ryan" parecer pequeno. Na linguagem da guerra, é o tal do fogo amigo: Tom Hanks e Steven Spielberg deram um tiro no pé. Empolgados com os resultados do Soldado Ryan, a dupla produziu a obra definitiva sobre a Segunda Guerra Mundial.

"Band of Brothers" é o produto perfeito, completo, porque tem a duração adequada (10 horas, divididas em 10 episódios) e o orçamento adequado (foram US$ 120 milhões gastos em 3 anos de produção, bancados pela dupla de produtores executivos junto à HBO). A história verídica, baseada no livro de Stephen E. Ambrose, acompanha os passos da mitológica Companhia Easy, divisão de paraquedistas do exército americano, desde o treinamento pesado até o final do confronto passando por inúmeras batalhas, todas elas cruciais para o destino da guerra.

Cada episódio trata de focar em um determinado membro da Easy, o que significa que, ao final da série, você está familiarizado com todos eles e quer rever tudo desde o início, para prestar mais atenção à trajetória de cada um daqueles heróis. Desnecessário dizer que, com essa intimidade, cada baixa é sentida como se um membro da sua família estivesse partindo. Desnecessário também dizer que, a partir do terceiro ou quarto episódio, quando a maioria já é seu amigo íntimo, é difícil segurar as lágrimas com cada atitude de cada personagem.

Não bastasse essa proximidade causada por um casting perfeito (cheio de atores semidesconhecidos) e um roteiro sempre primoroso, cada episódio traz no prólogo depoimentos dos soldados sobreviventes nos dias atuais, senhores de idade cheios de cicatrizes e sabedoria. Eles não se apresentam: faz parte da graça da série tentar adivinhar quem é quem. Só no epílogo do último episódio é que eles se revelam, e aí não tem como não chorar. Muito. De soluçar, mesmo.

A trajetória da Easy começa no campo de treinamento e já parte direto pro desembarque na Normandia, o Dia D, quando os nossos amigos são lançados atrás das linhas inimigas - uma estratégia inédita até então. "Band of Brothers" também é uma aula de história e de estratégias militares. Acredite, os soldados não correm pra lá e pra cá atirando a esmo. Cada ação é destrinchada e mostra a genialidade de Richard Winters, que acaba se tornando o protagonista involuntariamente, da mesma forma que vai ganhando patentes no decorrer da guerra. Winters é o maior líder já retratado em película e ponto final. Bastam uns dois episódios pra você, que nunca usou farda na vida, acreditar que, se Winters mandasse, pularia de um precipício sem problemas.

Na parte histórica, a reconstituição de época impecável ajuda a reconstruir cada batalha, sendo a de Bastogne a mais marcante. Debaixo de muita neve, sem roupas adequadas, alimentação ou munição, a Easy defende uma posição estratégica em uma floresta belga, naquela que foi classificada como a maior batalha da história do exército americano. Outros feitos da Easy surpreendem: por exemplo, eu não sabia que, durante a guerra, os aliados não sabiam da existência dos campos de concentração. Assim, quando o pelotão em estado de choque encontra um desses campos abandonado pelos nazistas, temos o impacto equivalente a uns dez filmes de terror em um único episódio. E então os soldados que estavam há anos agindo já no piloto automático se lembram por que, afinal, estão lutando aquela guerra.

Indo além do valor cinematográfico e histórico, "Band of Brothers" ainda é capaz de mudar a sua vida com seu valor moral. Se o papel dos artistas é relembrar os horrores da II Guerra para que o Holocausto nunca mais aconteça, a série é uma lição de vida que ainda faz justiça aos heróis de verdade: Winters, Lipton, Nixon, Malarkey, Bull, Buck, Perconte, Liebgott, Guarnere, Penkala, Toye, Webster, Speirs... escolha o seu preferido.

Depois de dez horas na companhia desses caras, é difícil se despedir deles. Aí vêm os extras do DVD pra preencher esse vazio, mostrando os tiozinhos recontando cada etapa da jornada que você acabou de ver na série, com cenas reais das batalhas, filmadas na época. O documentário "We Stand Alone Together: The Men of Easy Company" é tão bom quanto a própria série. E os diários em vídeo do ator Ron Livingston, mostrando os dez dias de treinamento árduo do elenco sob a direção do sensacional Cap. Dale Dye (consultor de todo filme de guerra que se preze) são impagáveis.

Minha satisfação maior ao terminar tudo isso e ter que abandonar a Companhia Easy foi descobrir que tem um monte de gente por aí completamente apaixonada pela série. O tipo de gente que trata Dick Winters como o mestre Yoda. Isso é reconfortante. Sinal de que "Band of Brothers" passou sua mensagem.

Abertura:

11.7.09

A vida é feita de escolhas

We're all faced throughout our lives with agonizing decisions, moral choices. Some are on a grand scale, most of these choices are on lesser points. But we define ourselves by the choices we have made. We are, in fact, the sum total of our choices. Events unfold so unpredictably, so unfairly, human happiness does not seem to be included in the design of creation. It is only we, with our capacity to love that give meaning to the indifferent universe. And yet, most human beings seem to have the ability to keep trying and even try to find joy from simple things, like their family, their work, and from the hope that future generations might understand more.

Prof. Levy (ou Woody Allen) em "Crimes e Pecados".

10.7.09

A grama do vizinho

Imagine que o seu vizinho, aquele cara chato que ganha mais do que você, troca de carro todo ano, tem uma TV de LCD Full HD de 98 polegadas e home theater com blue-ray, viaja pra Europa pelo menos uma vez por ano, é bonitão, alto, forte e cheiroso, namora uma mina muito gata e eles são muito felizes durante 3 anos.

Lá da sua casa você ouve os dois balançando a cristaleira e estapeando a camurça toda noite e você morre de inveja. Você, com sua namorada que só quer saber de ir no shopping.

Só que uma hora o relacionamento ao lado naturalmente esfria. A namorada já não tem muita paciência com o vizinho, vive mal humorada dando patadas em todo mundo, anda meio frígida e largada, e por isso seu vizinho já não dá mais no couro como antigamente. Ela ainda tenta esquentar a relação, improvisando posições esdrúxulas que não dão em nada.

Cansado de insistir na desgraçada, o vizinho lhe dá um pé na bunda e parte pra outra, uma moça mais nova e mais desconhecida, pra ver o que acontece.

Aí você, sem um pingo de orgulho ou amor próprio, vê ali uma oportunidade. Dá um pé na sua namorada, aquela vadia ordinária que só dava prejuízo, e resolve correr atrás da ex do vizinho.

Só que a ex do vizinho não está muito interessada em você. Ela está esperando outros caras mais ricos e mais bonitos que você terminarem com suas respectivas namoradas, mas eles não terminam. Então ela fica te enrolando, deixa você ali esperando na sarjeta, com um fiapo de esperança e uma garrafa de pinga na mão.

Você, que não tem nada a perder, espera pacientemente. Vai que uma hora ela desiste dos outros e te dá uma chance, não é?

Esta é a história do Palmeiras esperando o Muricy assinar. Que vergonha.

Epílogo: depois de tomar um toco definitivo da ex do vizinho, você publica no Twitter: "não quero mais saber dela".

O fim de uma era

Os arquivos da Internet Retrô vão sofrer uma baixa considerável no dia 26 de outubro de 2009. O GeoCities, referência na hospedagem gratuita desde os tempos em que o YouTube era preto e branco, vai sair do ar.

Foi um choque pra mim. Depois do Michael Jackson e do namorado do Ronaldo, agora é o GeoCities que se vai. 2009 não tem sido bom.

Como canto do cisne, deixo linkado aqui meu último site hospedado no GeoCities: o Fire Walk With Me. Uma homenagem singela a Twin Peaks, feita com todo meu conhecimento avançado em flash há quase 10 anos.

Quando fiz isso no glorioso ano de 2000, o sitezinho era pesado e ninguém conseguia abrir. Não era um erro. Era um site de vanguarda, a frente do seu tempo, que já vislumbrava as possibilidades da popularização da banda larga que viria nos anos seguintes. Hoje ele abre que é uma beleza.

Repare nos detalhes. O aviso da resolução. O contador que não funciona. O uso da palavra "webmaster". Tudo muito nostálgico.

Infelizmente, em outubro, clássicos como este, que ajudam a contar a história recente da humanidade, vão desaparecer. Todos estes momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer.

Aproveite enquanto eles ainda existem. RIP GeoCities.

8.7.09

Musicoterapia

Musicoterapia é a utilização da música e/ou de seus elementos constituintes, ritmo, melodia e harmonia, por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, em um processo destinado a facilitar e promover comunicação, relacionamento, aprendizado, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, a fim de atender as necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas. A musicoterapia busca desenvolver potenciais e/ou restaurar funções do indivíduo para que ele ou ela alcance uma melhor qualidade de vida, através de prevenção, reabilitação ou tratamento. (World Federation of Music Therapy)

Eu sei que eu passo tempo demais olhando pros meus rankings do last.fm e isso não é normal, tampouco saudável. Mas eu não consigo evitar, é mais forte do que eu. Já passei faz tempo da preocupação simplória com a ordem das bandas, essa coisa quase adolescente de fazer top e brincar de "Alta Fidelidade". Agora quando eu vejo aquelas listas eu vejo meu passado, resgato sentimentos remotos, bring back some loving feelings, tento entender a minha vida e desvendar os mistérios da minha existência. Não é mais um ranking, é praticamente uma nova modalidade do teste de Rorschach.

Assim, tomando por base os relatórios de artistas mais ouvidos disponibilizados pelo site, temos um panorama bastante fiel do que aconteceu comigo no período. A polêmica do Last.fm ter enviado relatórios de usários pra RIAA não é nada. Creio que se eles cruzarem essas informações com os dados de consumo do meu cartão Pão de Açúcar Mais, eles terão praticamente o meu DNA destrinchado, sendo possível até a criação de um clone meu à base de boa música e alimentos congelados.

O Last.fm, porém, só fornece as informações, não faz as análises. Pelo menos ainda não. Então cabe a você buscar os critérios, indo além daquilo que aparece na primeira tela. Meu novo critério é analisar os mais ouvidos por período. Veja os campeões:

Campeões da semana:

Artista: Frank Sinatra
Música: "Beyond the sea" (Bobby Darin)

Campeões do trimestre:

Artista: Wilco
Música: "Bell bottom blues" (Derek and the Dominos)

Campeões do semestre:

Artista: Radiohead
Música: "No line on the horizon" (U2)

Campeões do ano:

Artista: U2
Música: "One" (U2)

Campeões de todos os tempos (desde 2005):

Artista: Bruce Springsteen
Música: "You've lost that lovin' feelin'" (The Righteous Brothers)

Você olha isso e vê apenas 5 artistas e 5 músicas. Eu vejo as tags #grandesesperanças, #sonhosrealizados, #coraçõespartidos, #saudades, #vontadedemudardevida, #frustrações, #amizadeseternas, #nostalgia, #romantismo, #decepções e uma trilha sonora bastante pertinente desta minha vidinha lazarenta.

Próximo passo: determinar as canções e os artistas que deverão liderar os rankings a curto, médio e longo prazo, obviamente apenas com tags felizes e otimistas. E guiar a vida de modo que essa trilha sonora faça sentido.

7.7.09

Enquete

Resultado da enquete: O QUE TROUXE MAIS SOFRIMENTO?

1. As entrevistas do Joel Santana em inglês e a morte do Michael Jackson - 39%
2. A resposta do Ashton Kutcher aos nossos humoristas idiotas - 15%
3. A morte da Farrah Fawcett - 4%
4. A queda do outro air bus - 2%

Empate na primeira posição entre o inglês 6 meses de Fisk de Joel Santana e o falecimento de Michael, que será enterrado hoje no último megashow de sua carreira. Mas o importante mesmo é que a enquete comprovou uma tese: ninguém se importou com a queda daquele outro avião lá não sei aonde.

6.7.09

A arca perdida



A notícia mais bombástica do ano passou batida na grande mídia. Mais que escândalo do Senado, queda de avião, gripe suína ou especulações sobre o fim do mundo em 2012: no final do mês passado, surgiu a informação de que a Arca da Aliança não só estaria na Etiópia, como seria levada a público.

Notícia aqui: vão mostrar a Arca!

A vantagem da Arca da Aliança em relação a todos os outros artefatos bíblicos é que ela já vem com trilha sonora do John Williams. Fica aí a dica para fabricantes de brinquedos: uma Arca da Aliança em formato de porta-jóias que toca John Williams. Eu não tenho jóias, mas eu compraria.

Fiquei emocionado com a notícia. Lembrei da primeira vez que vi "Os Caçadores da Arca Perdida" e corri pra procurar na Bíblia histórias sobre a Arca. Senti calafrios na espinha recordando a cena em que Indy explica aos agentes secretos por que a Arca é tão importante. Twitei: "aconteça o que acontecer, Marion, fique com os olhos fechados".

Mas aí notei que eu era o único achando que isso era a principal notícia da década ao lado do 11 de setembro. Então fui pesquisar e descobri que era tudo mentira. Não, não vão mostrar a Arca pra ninguém. Foi tudo boato da mídia italiana. Italiano não sabe ficar com a boca fechada.

Notícia aqui: era mentira!

Aí o tiozão com cara de sacerdote do "Templo da Perdição" (outro filme, outra história) diz que eles até têm a Arca, mas que não vão mostrá-la pra ninguém. Aí é fácil. Eu também tenho o Santo Graal (outro filme, outra história) na minha casa, só que não mostro pra ninguém. Tomo leite nele antes de dormir toda noite.

Assim, nossa última lembrança da Arca da Aliança permanece aquele relance da caixa aberta na Área 51 em "O Reino da Caveira de Cristal" (outro filme, outra história), e eu nem sei se ela e todos os fetos alienígenas (isso é do "Arquivo X", não confunda) não foram destruídos por aquela explosão da bomba atômica - mais um problema geográfico desse filme ruim.

Eu não sei o que é pior. O destino dado pela humanidade (Etiópia?) ou o dado pelo cinema.

5.7.09

Festival In-Edit

Dois filmes excelentes do festival de documentários musicais que passou por São Paulo:

The Wrecking Crew
(2008, Dir.: Denny Tedesco)

Wrecking Crew foi a melhor banda de todos os tempos mas talvez você nunca tenha ouvido falar dela. Esse nome nem era oficial, era mais um apelido para um bando de músicos de estúdio extremamente requisitados nos anos 50 e 60 por gente do calibre de Phil Spector e Brian Wilson. Assim, esses talentosos mercenários da música gravaram algumas das melhores músicas pop da história ("Be My Baby", "You've Lost That Lovin' Feelin'", "River Deep Mountain High", "I Got You Babe", o "Pet Sounds" inteiro e mais um monte de outras que você confere clicando aqui, além de temas eternos de trilhas como "Missão Impossível", "A Pantera Cor-de-Rosa", "Hawaii 5.0" e outros). O documentário soa como homenagem familiar, já que seu diretor é Denny Tedesco, filho do mitológico guitarrista Tommy Tedesco, um dos pilares da Wrecking Crew, já falecido. Entrevistas recentes e antigas com os músicos relembrando o passado e contando belos "causos" do passado fazem a festa do documentário, ilustrado obviamente pelas melhores canções pop já gravadas. Cinematograficamente quadrado demais (parece um especial de TV, na verdade), "The Wrecking Crew" vale mais por fazer justiça a esses tiozinhos geniais e a uma época de ouro que não volta mais.

Trailer:



Johnny Cash At Folsom Prison
(2008, Dir.: Bestor Cram)

Meia dúzia de gatos pingados no Wrecking Crew, sessão abarrotada com gente sentada no chão no Johnny Cash. Definitivamente, a carreira de Cash ganhou vida nova depois que ele morreu. Mas o homem de preto teve outras ressurreições, e a mais famosa delas foi a lendária apresentação em Folsom Prison, que virou um dos discos ao vivo mais famosos da história e ganhou força no roteiro de "Johnny & June". Como não existem registros em vídeo da apresentação, o documentário reconstrói o evento com o áudio e depoimentos de quem esteve lá, sejam músicos, sejam presidiários, seja o próprio Johnny Cash já velho (e só em áudio, não sei por que ele não aparece). Como documentário, é bem melhor que o da Crew, principalmente por ampliar o espectro da coisa toda e mostrar vários pontos de vista. Ganha força a história de Glen Sherley, o presidiário de Folsom que virou protegido e amigo pessoal de Cash, mas não aguentou a vida em liberdade. Ou o outro detento que ganha sua simpatia para depois contar o motivo de estar preso. Cruel. Algumas músicas do show ganham clipezinhos animados ("25 Minutes To Go" é o melhor deles) e como de costume as palavras de Johnny Cash sobre June Carter são de arrasar corações. "At Folsom Prison" serve como complemento à cinebio do cantor. Que venham mais obras cobrindo outras fases de sua carreira.

Trailer: