Band of Brothers
(2001, minissérie de Tom Hanks e Steven Spielberg)
Não me arrependo por ter demorado tanto pra ver "Band of Brothers". Neste intervalo de 8 anos eu pude me divertir com todo tipo de filmes e séries, aproveitando o que eles tinham pra me oferecer. Agora, depois de "Band of Brothers", nada mais faz sentido. O patamar é outro. Tudo aquilo que eu entendia por heroísmo, coragem, lealdade, honra, sacrifício, caráter, amizade... foi tudo por água abaixo. Na área dos épicos edificantes, "Band of Brothers" faz "O Senhor dos Anéis" parecer tosco. Na área dos registros da II Guerra, "Band of Brothers" faz "O Resgate do Soldado Ryan" parecer pequeno. Na linguagem da guerra, é o tal do fogo amigo: Tom Hanks e Steven Spielberg deram um tiro no pé. Empolgados com os resultados do Soldado Ryan, a dupla produziu a obra definitiva sobre a Segunda Guerra Mundial.
"Band of Brothers" é o produto perfeito, completo, porque tem a duração adequada (10 horas, divididas em 10 episódios) e o orçamento adequado (foram US$ 120 milhões gastos em 3 anos de produção, bancados pela dupla de produtores executivos junto à HBO). A história verídica, baseada no livro de Stephen E. Ambrose, acompanha os passos da mitológica Companhia Easy, divisão de paraquedistas do exército americano, desde o treinamento pesado até o final do confronto passando por inúmeras batalhas, todas elas cruciais para o destino da guerra.
Cada episódio trata de focar em um determinado membro da Easy, o que significa que, ao final da série, você está familiarizado com todos eles e quer rever tudo desde o início, para prestar mais atenção à trajetória de cada um daqueles heróis. Desnecessário dizer que, com essa intimidade, cada baixa é sentida como se um membro da sua família estivesse partindo. Desnecessário também dizer que, a partir do terceiro ou quarto episódio, quando a maioria já é seu amigo íntimo, é difícil segurar as lágrimas com cada atitude de cada personagem.
Não bastasse essa proximidade causada por um casting perfeito (cheio de atores semidesconhecidos) e um roteiro sempre primoroso, cada episódio traz no prólogo depoimentos dos soldados sobreviventes nos dias atuais, senhores de idade cheios de cicatrizes e sabedoria. Eles não se apresentam: faz parte da graça da série tentar adivinhar quem é quem. Só no epílogo do último episódio é que eles se revelam, e aí não tem como não chorar. Muito. De soluçar, mesmo.
A trajetória da Easy começa no campo de treinamento e já parte direto pro desembarque na Normandia, o Dia D, quando os nossos amigos são lançados atrás das linhas inimigas - uma estratégia inédita até então. "Band of Brothers" também é uma aula de história e de estratégias militares. Acredite, os soldados não correm pra lá e pra cá atirando a esmo. Cada ação é destrinchada e mostra a genialidade de Richard Winters, que acaba se tornando o protagonista involuntariamente, da mesma forma que vai ganhando patentes no decorrer da guerra. Winters é o maior líder já retratado em película e ponto final. Bastam uns dois episódios pra você, que nunca usou farda na vida, acreditar que, se Winters mandasse, pularia de um precipício sem problemas.
Na parte histórica, a reconstituição de época impecável ajuda a reconstruir cada batalha, sendo a de Bastogne a mais marcante. Debaixo de muita neve, sem roupas adequadas, alimentação ou munição, a Easy defende uma posição estratégica em uma floresta belga, naquela que foi classificada como a maior batalha da história do exército americano. Outros feitos da Easy surpreendem: por exemplo, eu não sabia que, durante a guerra, os aliados não sabiam da existência dos campos de concentração. Assim, quando o pelotão em estado de choque encontra um desses campos abandonado pelos nazistas, temos o impacto equivalente a uns dez filmes de terror em um único episódio. E então os soldados que estavam há anos agindo já no piloto automático se lembram por que, afinal, estão lutando aquela guerra.
Indo além do valor cinematográfico e histórico, "Band of Brothers" ainda é capaz de mudar a sua vida com seu valor moral. Se o papel dos artistas é relembrar os horrores da II Guerra para que o Holocausto nunca mais aconteça, a série é uma lição de vida que ainda faz justiça aos heróis de verdade: Winters, Lipton, Nixon, Malarkey, Bull, Buck, Perconte, Liebgott, Guarnere, Penkala, Toye, Webster, Speirs... escolha o seu preferido.
Depois de dez horas na companhia desses caras, é difícil se despedir deles. Aí vêm os extras do DVD pra preencher esse vazio, mostrando os tiozinhos recontando cada etapa da jornada que você acabou de ver na série, com cenas reais das batalhas, filmadas na época. O documentário "We Stand Alone Together: The Men of Easy Company" é tão bom quanto a própria série. E os diários em vídeo do ator Ron Livingston, mostrando os dez dias de treinamento árduo do elenco sob a direção do sensacional Cap. Dale Dye (consultor de todo filme de guerra que se preze) são impagáveis.
Minha satisfação maior ao terminar tudo isso e ter que abandonar a Companhia Easy foi descobrir que tem um monte de gente por aí completamente apaixonada pela série. O tipo de gente que trata Dick Winters como o mestre Yoda. Isso é reconfortante. Sinal de que "Band of Brothers" passou sua mensagem.
Abertura:






