23.10.09

I'm leaving today

A partir de hoje, este blog está de férias junto com seu dono. Daqui a algumas semanas eu volto cheio de novidades, histórias pra contar e, se Deus quiser e a história do ano passado se repetir, com o São Paulo Futebol Clube liderando o Brasileirão. Pode ser que ainda apareça algum filme por aqui, mas é bem pouco provável. Entretanto, tentarei sempre que possível manter o Twitter atualizado, pra vocês não sentirem muito a minha falta. Então follow eu e aquele abraço.

Talk about a dream
Try to make it real
You wake up in the night
With a fear so real
Spend your life waiting
For a moment that just don't come
Well, don't waste your time waiting

21.10.09

They pull me back in

Minhas associações sobre New Jersey foram bem recebidas e as 3 versões de "Jersey Girl" ganharam o mundo. Agora segura essa sequência:


O original.


A homenagem.


A paródia.

Gênios, todos eles.

18.10.09

Up - Altas Aventuras

("Up", 2009, Dir.: Pete Docter e Bob Peterson)



Algum dia os historiadores vão olhar pra trás e determinar que, na primeira década do século 21, vivíamos uma crise de criatividade no cinema e que Hollywood sobrevivia às custas de adaptações de HQs, refilmagens e tramas baseadas em brinquedos do passado. Eles vão destacar que, apesar da má fase do cinemão, a Pixar era um oásis de onde partiam os melhores filmes de cada ano (sejam eles animados ou não, em 3D ou não) com sua equipe de artistas infalíveis que alimentaram em toda uma geração o amor pelo cinema. Como Spielberg e George Lucas fizeram com a minha geração. Ou como "O Mágico de Oz" e "Cantando na Chuva" e "E o Vento Levou" fizeram lá atrás. Dessa vez, logo no tradicional curta de abertura, "Parcialmente Nublado", uma cegonha azarada é encarregada de levar apenas bebês que dão trabalho e você se pergunta como ninguém pensou nisso antes.

Já "Up", o longa, tem sabor especial para nós brasileiros, graças às desventuras do finado padre voador que levantou vôo com seus balões e sumiu no mar, numa infeliz coincidência entre vida e arte. Mas o protagonista de "Up", Carl Fredricksen (por aqui, com a ótima dublagem de Chico Anysio) não é apenas um intrépido aventureiro. Ele literalmente carrega nos ombros o peso da perda de sua esposa, Ellie. Sua aventura tem um objetivo quase místico: levar a casa onde viveu o amor de uma vida até uma região paradisíaca da América do Sul.

A imagem da casinha voando com uma infinidade de balões coloridos já é clássica. Apesar do evidente tom de fantasia de uma fábula infantil - a cena em que a casa levanta vôo só pode ser comparada a momentos mágicos do cinema como o vôo das bicicletas em "E.T." - não dá pra não encarar a decisão de Carl como uma forma de desistir da vida, de fugir da realidade e abraçar a fantasia, afinal o velhinho viúvo não tem mais nada a perder.

O prólogo construído para demonstrar isso tudo é uma típica obra-prima Pixar. Acompanhamos toda a vida de Carl ao lado de Ellie desde a infância e, com uns 10 minutos de filmes, a sala toda já está com os olhos cheios de lágrimas. Se você se emociona com histórias de casais que atravessam a vida juntos (lembre-se do clipe de "Hurt" do Johnny Cash), "Up" vai acabar contigo. A morte de Ellie quase entra para a galeria de traumas Disney, junto com a mãe do Bambi ou o pai do Rei Leão, mas é tratada com mais ternura e menos drama. Solitário em uma casa carregada de lembranças (em determinado momento ele vai até chamar a casa pelo nome da falecida), Carl precisa ser salvo. E sua redenção não vem com os balões, mas sim com a figura simpática do escoteiro Russell, que pega carona clandestinamente na casa voadora. Tem início uma daquelas amizades clássicas do cinema.

Assim como em "Wall-E", "Up" perde um pouco do encanto na segunda metade, quando a poesia dá lugar à ação e novos personagens aparecem. Carl e Russell vão enfrentar mais desafios do que simplesmente voar em uma casa carregada por balões, em uma subtrama envolvendo cachorros que falam e preservação ecológica. Interessante como nessa fase do filme a casa assume fisicamente a sua condição de fardo, a cruz que Carl deve carregar.

Felizmente, nos minutos finais a poesia volta a dominar, e Ellie ensina a todos nós o significado da aventura da vida. E como em "Wall-E", ela nem precisa de diálogos pra isso.

Trailer:

16.10.09

Distrito 9

("District 9", Dir.: Neill Blomkamp, 2009)



Sou adepto da filosofia Rocky Balboa: se você começou alguma coisa, vá até o final. Ou pelo menos vá até onde você aguentar. Go the distance. Se você teve uma boa ideia, não mude-a no meio do caminho. Não se mexe em time que está ganhando.

"Distrito 9", a maior sensação nerd com hype fomentado online de 2009 (em breve isso deve virar categoria do Oscar), parte de uma premissa muito, muito interessante. Uma nave alienígena gigante paira sobre Joanesburgo, na África do Sul. Não, não é Nova York, Washington, nem Tóquio. Sabe-se lá por que, a nave encalhou ali no céu da cidade.

Um documentário mostra rapidamente como a população alienígena sobrevivente vai parar em um enorme gueto, uma favela chamada Distrito 9 onde vive em condições precárias e ainda sofre com a discriminação da raça humana. As críticas à intolerância são bem evidentes e remetem ao apartheid e ao holocausto sem muito esforço. Até um apelido politicamente incorreto a raça alienígena ganha em solo terráqueo: "camarões".

20 anos depois de uma convivência tumultuada, o governo resolve mudar o gueto de lugar, isolando ainda mais os camarões para bem longe da zona urbana. O burocrata Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), tão patético quanto seu nome dá a entender, é destacado para liderar a missão que vai recolher as assinaturas dos aliens despejados - e recolher suas armas sempre que possível, afinal a organização que controla a situação atua no ramo bélico.

Até aí, o cineasta sul-africano Neill Blomkamp, apadrinhado de Peter Jackson, conduz bem seu pseudo-documentário, nos moldes de tantos outros filmes que têm seguido essa onda nos últimos tempos. Ele usa imagens de câmeras de segurança e de uma reportagem de TV para dar aquela sensação de realismo que você conhece bem desde que uma certa bruxa apavorou estudantes de cinema em uma floresta. Porém, quando Wikus é contaminado sem muita explicação por um combustível alienígena (?!), Blomkamp deixa tudo isso pra trás e suas câmeras passam a acompanhar a ação como um filme de ficção tradicional. Mais do que a mudança de tom e de conceito, o que incomoda é que a câmera tremida e a edição frenética, antes justificadas pelo falso documentário, continuam valendo na fase ficcional. Cadê o critério?

A partir daí, "Distrito 9" perde todo o seu charme e torna-se um filme de ação, ficção e terror que mistura "Falcão Negro em Perigo" com "Aliens" e mais uma porção de outros filmes sobre mutação e contaminação. O mais óbvio: Wikus vive seu pesadelo kafkiano como "A Mosca" do Cronenberg, mas aparentemente não aprende nada com ele. A segunda parte da trama peca até por mostrar demais os aliens, que na alta definição do cinema se mostram bem menos interessantes do que nas imagens toscas do VHS. Perceba como seus olhares e seus gestos lembram demais os Transformers, inclusive naquela irritante expressão sofrida de Bumblebee, o Camaro emo. Se o template do corpo e das expressões veio de lá, os templates de áudio vieram direto de alguns personagens da nova trilogia de "Star Wars".

Aquele bom e velho conceito de que, no final das contas, a raça humana é sempre a pior espécie é um clichê com o qual adoramos concordar. Mas em meio à falta de carisma dos envolvidos, fica difícil concordar com qualquer lado. Assim, para funcionar a bonita lição de vida sobre tolerância entre os povos, é preciso incluir um alien criança que tem lá sua dose de fofura. Caso contrário, pedir para alguém se afeiçoar aos camarões seria como pedir para alguém não matar a barata que invadiu a cozinha.

Sobram uma excelente primeira meia hora, uma boa ideia que não deveria ter sido abandonada, uma ótima campanha de marketing e a imagem impactante da nave sobre a cidade. Desfocada, abandonada e fazendo parte da paisagem depois de anos, ela nem precisa soltar raios para parecer ameaçadora. E deveria ter sido melhor utilizada pra justificar o medo da população. Afinal, viver com aquilo sobre a cabeça por 20 anos deve causar transtornos psicológicos, não?

Trailer:

14.10.09

New Jersey Feelings



I'm in love with a jersey girl. Não uma garota em si, porque infelizmente não conheço nenhuma moradora de New Jersey, mas pela música, "Jersey Girl". Isso, estou apaixonado pela música.

Então estava num papo profundo sobre as maravilhas do estado de New Jersey com meu amigo que mora em Berlim e ele definiu: "A vantagem de Nova York sobre Berlim é que Berlim não tem uma New Jersey do lado". Fato.

Até São Paulo tem New Jerseys ao redor: Osasco, Guarulhos, ABC, escolha a sua New Jersey paulistana. Cidades gigantes e cruéis como São Paulo e Nova York precisam de sidekicks, mitologicamente falando. É a Tatooine de onde todos os Luke Skywalkers caipiras e sonhadores querem fugir.


"O Balconista" de Kevin Smith, orgulho de New Jersey.

Bem, New Jersey tem rendido bons frutos em todas as áreas da cultura pop que me interessam. No cinema, Kevin Smith transformou o mercadinho em cenário-ícone. Na TV, "Os Sopranos" mostraram a máfia local naquela que é considerada a melhor série de todos os tempos. E na música, papai Bruce Springsteen e seu filho Jon Bon Jovi não se cansam de cantar sobre o tema.

Então eu, que sou colonizado, não sinto nada no meu coração quando cruzo a Ipiranga com a Avenida São João, mas me emociono ouvindo "Jersey Girl". Uma coisa que eu aprendi é que, quando o assunto é arte, não importa de onde ela veio, mas sim a maneira como ela te atinge. Então digo sem medo e sem vergonha que me identifico com a turma de New Jersey, assim como me identifico com as modas de viola do interior que o Renato Teixeira canta.

Questões de identificação e admiração. O ser humano mais legal do mundo, segundo recente pesquisa lá em casa, é de New Jersey. Seu nome é Steven Van Zandt, mas ele também atende por Little Steven. Ok, ele nasceu em Massachusetts, mas perceba como sua vida está ligada a New Jersey, pelos chefes com quem ele trabalha:


Com Bruce Springsteen, seu chefe mais famoso.


Com Tony Soprano, seu chefe mais mafioso.


Com o pessoal do Bon Jovi, seus colegas de trabalho.

Ele toca, canta, faz backing vocals lindos, faz parte da E Street Band, atua, imita o Michael Corleone como ninguém, usa bandanas e é feio pra burro. Logo, Little Steven é o cara mais legal do mundo. Como queríamos demonstrar.

E eu não poderia terminar esta ode a New Jersey e suas personalidades marcantes sem postar a música que deu origem a tudo isso. Em três versões, com historinhas e sem ordem de preferência.


No domingo passado, Bruce Springsteen cantou "Jersey Girl" pra encerrar o último show do Giants Stadium, que vai ser demolido. Que apoteose.


No final de sua versão de "Jersey Girl", Jon Bon Jovi ensina que a música não é dele nem do Springsteen, embora eles quisessem muito, mas sim do Tom Waits.


Tom Waits, que é californiano mas se apaixonou por uma moça de New Jersey. Sing shalalala.

13.10.09

Top 10 tios

Uma singela homenagem a mim mesmo. Afinal, eu sempre fui tiozão.

10.

Uncle Bens.

9.

Uncle Ben Parker.

8.

Uncle Tupelo.

7.

Tio Sam.

6.

Uncle Buck.

5.

Tio Chico.

4.

Tio Owen Lars.

3.

Titio Sirius Black.

2.

Tio Junior Soprano.

1.

Tio Patinhas.

10.10.09

Bastardos Inglórios

("Inglorious Basterds", 2009, Dir.: Quentin Tarantino)



Todos os filmes anti-nazistas já foram feitos. Filmes da II Guerra, filmes sobre os horrores do Holocausto, filmes sobre o lado dos aliados, sobre o lado dos alemães e até sobre o lado de Hitler. Mas ninguém havia ido tão longe quanto Quentin Tarantino. "Bastardos Inglórios" é a resposta do cinema aos nazistas, a vingança definitiva do cinema contra Hitler e sua turma. E você sabe, o cinema não precisa ser fiel aos fatos. Se você procura algo mais próximo da realidade, vá ver "A Lista de Schindler" ou "Band of Brothers". Perceba que irônico, em se tratando de II Guerra, o mestre da fantasia Steven Spielberg é referência de realidade. Talvez porque o conflito por si só tenha sido tão grandioso e épico, tão bem dividido entre mocinhos e bandidos, que o escapismo do cinema não encontrou seu lugar pra brincar. Bem, o Tarantino encontrou.

Pra começar, ele mais uma vez divide seu filme em capítulos. E o primeiro começa com um "Era uma vez na França ocupada pelos nazistas" em tom de fábula e, como em "Kill Bill Vol. 2", de faroeste. Logo na primeira cena, um pai de família trabalhando no campo manda as filhas entrarem em casa quando percebe a aproximação de um pequeno contingente de soldados nazistas. Mais uma vez Tarantino bebe na fonte de "Era Uma Vez no Oeste" e o uso constante de Ennio Morricone na trilha não deixa dúvidas: o homem ama Sergio Leone até fazendo um filme supostamente de guerra. O seu Henry Fonda é Christoph Waltz, que rouba o filme sem piedade no papel do Coronel Hans Landa, "o caçador de judeus". Cheio de falsas gentilezas e gestos ameaçadores, o ator até então desconhecido é o verdadeiro astro do filme.

Brad Pitt, por sua vez, pode se orgulhar de ter criado mais um personagem caricato e divertido, como seus papéis em "Snatch" e "Queime Depois de Ler", mas seu Tenente Aldo Raine chega a ser secundário durante boa parte da trama. Como são coadjuvantes, aliás, os tais Bastardos Inglórios que dão nome ao filme e ao segundo capítulo. Esse é o principal defeito do filme em si: com aquela já clássica cena de Pitt cobrando escalpos de seus comandados, Tarantino promete e não entrega. Não chegamos a conhecer a fundo aquele pelotão de judeus que só quer matar nazistas. Ao contrário do que muitos imaginavam, eles estão longe do carisma de "Os Doze Condenados". Os Bastardos são o alívio cômico, sanguinários justiceiros interpretados por atores que você já viu por aí, coadjuvantes de comédias ruins, mas nem se lembra o nome. Tarantino cria uma atmosfera propícia para eles e os larga num canto para ir cuidar de outros assuntos. Eu queria ver mais cenas do Urso Judeu.

Destaca-se entre os Bastardos a presença de Til Schwelger como o implacável Sargento Hugo Stiglitz, e de Michael Fassbender como o Tenente britânico que se junta ao grupo para uma missão. Ambos são legítimos representantes da quase extinta raça de atores durões que parecem saídos de algum faroeste de antigamente. O capítulo em que os dois, mais a atriz espiã interpretada por Diane Kruger jogam cartas com o oficial da Gestapo em um bar é, de novo, carregada de elementos de western. E deixa claro que "Bastardos Inglórios" não é exatamente um filme de guerra, mas sim um filmão de espionagem. Não temos grandes batalhas, armamentos, ações estratégicas, nada disso. A guerra de Tarantino, como poderíamos supor, acontece na base da conversa e daquele seu peculiar senso de humor.

Espionagem com elementos de faroeste, II Guerra como pano de fundo, David Bowie misturado com Morricone, diálogos intermináveis (e muitas vezes cansativos), narração de Samuel L. Jackson, participação de Harvey Keitel em off, Mike Myers carregado de maquiagem, a estética Grindhouse adotada nos últimos filmes e outras assinaturas do cineasta aqui e ali (como o eterno fetiche por pés, dessa vez muito bem utilizado a serviço da trama), tudo isso é muito divertido.

Mas o que dá alma a "Bastardos Inglórios" é mesmo sua constante homenagem ao cinema. É no cinema que tudo acontece, com participação direta de Joseph Goebbels, o marqueteiro de Hitler; referências a Leni Riefenstahl, a principal cineasta a serviço do Führer; e diversas menções a ícones do cinema alemão. Não por acaso, a mocinha da história é Shosanna (Melanie Laurent), a judia em busca de vingança, uma Uma Thurman sem superpoderes mas com uma sala de cinema a sua disposição. E também não deve ser por acaso que cabe ao bastardo vivido por Eli Roth (um cineasta na vida real) uma participação decisiva no clímax, pra recontar a história do jeito que ela deveria ter sido.

"Bastardos Inglórios" é o "Operação Valquíria" do mundo bizarro, o "Cinema Paradiso" de Quentin Tarantino, um filme de espionagem e guerra que não se leva a sério e uma mistura de elementos que nem sempre dá certo. Mas a lição é bem óbvia: Hitler usou o poder do cinema para chegar aonde chegou. Uma hora o cinema tinha que se vingar.

Trailer: