17.1.05

De-Lovely: Vida e Amores de Cole Porter

("De-Lovely", 2004, Dir.: Irwin Winkler)



Biografias levadas às telas do cinema sempre seguem uma determinada fórmula: a infância sofrida, a juventude cheia de excessos, o sucesso, os amores, a decadência, alguns escândalos, alguma doença e a triste morte. Felizmente, não é o caso de "De-Lovely", a cinebiografia de um dos maiores gênios da música americana: Cole Porter.

"De-Lovely" (nome de uma música de Porter) às vezes lembra outra biografia de sucesso: o já clássico "Amadeus" de Milos Forman, que usou as óperas de Mozart para narrar sua breve vida. Em "De-Lovely", o diretor Irwin Winkler usa e abusa das mais belas canções de Porter para criar não apenas uma biografia, mas um musical à moda antiga.

O filme começa com Porter velho (Kevin Kline, em interpretação perfeita) analisando uma peça de teatro que conta sua vida. A tal peça, conforme veremos, é o filme que se desenrola desde a juventude de Cole, focando principalmente sua relação com seu grande amor, Linda (Ashley Judd, no melhor papel de sua carreira). "É uma história de amor", diz o autor da peça, vivido por Jonathan Pryce.

O artifício escolhido por Winkler permite que o Porter velho critique sua própria biografia, resolva cortar trechos e mascarar outros - mas uma coisa Porter não esconde de ninguém: sua bissexualidade. Preso ao conservadorismo dos anos 30, 40 e 50, Porter esconde seus romances da mídia mas não de sua esposa, que compreende as paixões do marido e cria todo o conflito que conduz a trama.

Claro que tudo isso é contado com muita música, e à moda antiga. As pessoas não precisam de pretexto para sairem cantando, passado e presente se misturam, o Porter idoso interage com os personagens de sua vida, há dança e belas canções de Porter a cada cena. Com tudo isso, o resgate dos musicais clássicos em "De-Lovely" é muito mais feliz do que, por exemplo, no badalado e oscarizado "Chicago".

Mas não é só o musical que é à moda antiga: os diálogos, o ritmo, a ambientação do filme, tudo remete à época em que o filme se passa. Para não abandonar totalmente o público mais jovem, que provavelmente não conhece nada de Porter, jovens artistas pop aparecem aqui e ali cantando (muito bem, diga-se) as pérolas do compositor. Temos Robbie Williams, Alanis Morissette, Sheryl Crow, Natalie Cole e Diana Krall, entre outros, prestando sua homenagem ao mestre. Ainda assim, o público jovem pode se lembrar da regravação do U2 para "Night and Day" ou da abertura de "Indiana Jones e o Templo da Perdição" ao som de "Anything Goes", e através do filme passar a ter interesse na obra de Cole Porter.

Mesmo que isso não aconteça, "De-Lovely" ainda encanta com interpretações comoventes e uma história bem contada, que consegue usar criatividade e ousadia em uma cinebiografia. Infelizmente, o filme - feito para homenagear os 40 anos da morte do compositor - foi ignorado pela maioria que só tem olhos para a cinebio de Ray Charles e não deve ter muitas chances no Oscar. Uma pena, mas pelo menos Cole Porter ganhou uma homenagem à altura de sua grandiosa obra.

Trailer: