O Aviador
("The Aviator", 2004, Dir.: Martin Scorsese)
Quando pequeno, Howard Hughes prometeu que iria pilotar os aviões mais rápidos, namorar as mais belas mulheres e ser o homem mais rico do mundo. Antes de completar 30 anos, ele já tinha realizado tudo isso e ainda faria muito mais. É o que vemos em "O Aviador", o novo filme de Martin Scorsese - favorito ao Oscar desse ano.
O lendário Hughes nasceu em berço de ouro. Com a morte prematura dos pais, herdou um império de perfuração de petróleo. Mas o negócio era pequeno demais para a ambição do jovem magnata: "O Aviador" começa justamente com a estréia de Hughes (Leonardo DiCaprio) como cineasta, filmando seu primeiro e megalomaníaco longa "Anjos do Inferno" (Hell's Angels), que levou nada menos do que 3 anos para ser concluído graças aos caprichos do produtor/diretor. "Anjos do Inferno" foi o filme mais caro da época (final dos anos 20) e a comparação com o recente "Titanic" é inevitável, ainda mais com DiCaprio na tela.
O sucesso do filme tornou Howard Hughes poderoso em Hollywood, onde teve casos com praticamente todas as estrelas da época. O roteiro de "O Aviador", escrito por John Logan (de "Gladiador"), foca as duas que mais tiveram importância em sua vida: Katherine Hepburn (Cate Blanchett, roubando o filme em suas aparições) e Ava Gardner (Kate Beckinsale).
Porém, o cinema não era a maior paixão de Hughes. A aviação era seu objetivo maior. E o que ele fez pela indústria de aviação não foi pouco: mesmo sem graduação em engenharia, Hughes desenhava e planejava cada detalhe da construção de seus próprios aviões, chegando a bater sucessivos recordes de velocidade com eles - e a sofrer graves acidentes também. No auge de seu amor pelos aviões, comprou a companhia TWA e revolucionou também a aviação comercial, além de negociar com o próprio exército dos EUA durante a Segunda Guerra. E no meio disso tudo, ainda inventou o sutiã.
Mas nem tudo era alegria na invejada vida do mito. Howard Hughes sofria de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo, o mesmo problema do personagem de Jack Nicholson em "Melhor é Impossível"), uma doença nem sequer conhecida na época. Tinha sérios problemas com higiene e alimentação e, quando a doença se agravou, também apresentava dificuldades na fala.
O filme mostra a provável origem do distúrbio em uma breve cena de sua infância, mostrando uma mãe superprotetora. Em momentos como esse, "O Aviador" lembra o clássico "Cidadão Kane" e não deve ser mera coincidência: antes de ser um dos maiores cineastas em atividade, Scorsese é um grande cinéfilo. Reproduzir as peripécias de Hughes deve ter sido, portanto, a realização de um sonho pessoal do diretor.
Talvez por isso "O Aviador" tenha seus melhores momentos na "fase Hollywood" da vida de seu protagonista. Scorsese dirige esta primeira parte do filme com toda a grandiosidade, o glamour e a energia necessários. DiCaprio está ótimo como o jovem, inconsequente e genial Howard Hughes, um homem de negócios visionário. A "fase da aviação" também não decepciona, graças sobretudo ao perfeccionismo técnico da equipe de Scorsese, todos merecedores das estatuetas douradas.
O problema maior de "O Aviador" é a queda do ritmo na sua terceira parte, que entra na politicagem de Hughes contra o presidente da Pan Am (Alec Baldwin) e seu amigo Senador (Alan Alda). É aí que o filme se torna arrastado e não esconde seu maniqueísmo, criando o herói Hughes e os vilões da concorrência. E é aí que DiCaprio, apesar da atuação esforçada, não consegue "ser" Howard Hughes por um motivo simples: ele não parece envelhecer. Na fase mais trágica da vida do milionário, completamente isolado e entregue aos males da doença, o que vemos é o namorado da Gisele Bundchen de barba e com algumas queimaduras pelo corpo, e não Howard Hughes. A culpa recai sobre a aura de astro de DiCaprio (ainda reflexo de "Titanic") e pela estrutura física do ator, e não por sua capacidade de interpretar.
De um modo mais simplório, podemos dizer que o personagem é muita areia para o caminhãozinho de DiCaprio. Assim como sua história é grande demais para caber em um único filme. E é por isso que, apesar de recuperar o fôlego nos momentos finais, "O Aviador" está bem longe de ser "Cidadão Kane". Também está bem longe de ser um dos melhores filmes de Martin Scorsese. A fama de "maior cineasta vivo" faz com que esperemos muito mais dele, e o que ele entrega em "O Aviador" é o que outros competentes diretores como Michael Mann (aqui como produtor) e Anthony Minguella fariam em seu lugar.
Por outro lado, o épico grandioso e hollywoodiano tem tudo para levar vários troféus pra casa na noite do Oscar, corrigindo uma injustiça de décadas para com Scorsese. Já DiCaprio, pode ter paciência e continuar na fila, contentando-se com seu status de "rei do mundo" mais uma vez.
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