Twin Peaks
Segunda Temporada
Poucas obras mexeram tanto comigo quanto "Twin Peaks". Mas quando a série foi exibida pela primeira vez na TV brasileira, nas noites de domingo do começo dos anos 90, a Globo a mutilou e não chegou nem na metade da segunda temporada. Algum tempo depois, a Record tratou de exibir tudo na íntegra, sem interrupção. Assim, apesar de todo meu interesse, nunca tive a sensação de mudança de temporada, nunca soube definir direito os limites entre uma e outra. Agora, depois de revisitar a cidade com os boxes de DVDs da Paramount, está tudo mais claro na minha mente: a primeira temporada continha o clássico piloto e mais sete episódios. Uma temporada bastante curta, mas irretocável. A segunda temporada, mais irregular, adicionou 22 episódios à trama e encerrou a série prematuramente.
O segundo ano de "Twin Peaks" começa com o episódio #8 partindo de onde o primeiro terminou, com o agente Cooper baleado em seu quarto no Great Northern Hotel. O clima de suspense sobrenatural mantém o padrão com alguns episódios assinados por David Lynch e muitas pistas sobre o assassinato de Laura Palmer.
Acontece que, ao contrário dos dias atuais, nos quais uma série pode manter um mistério por muitas temporadas enrolando o espectador, não dava mais pra esconder a resposta à célebre questão "quem matou Laura Palmer?". No episódio #16 o assassino é preso e "Twin Peaks" perde boa parte de sua graça.
Não sei se são verdadeiros os rumores de que David Lynch abandonou a série para cuidar de seus projetos cinematográficos e por isso a coisa degringolou, mas a meia dúzia de episódios que dão sequência à trama são de uma pobreza de dar dó. Roteiristas perdidos, direções inseguras e uma trama que sobrevive na inércia graças ao carisma de seus personagens. Até a trilha maravilhosa de Angelo Badalamenti é mal utilizada, servindo de muleta para dar emoção a cenas completamente inúteis. Os fãs de "Arquivo X" ainda podem se divertir com a bizarra participação de David Duchovny como Denise Bryson, o agente do FBI travestido, personagem que some sem dar satisfações e serve para resolver os problemas de Cooper com as acusações de tráfico de drogas. Também serve para realizar, em parte, o meu maior sonho nerd: ver Fox Mulder, pupilo não-declarado de Dale Cooper, investigando Twin Peaks.
Algumas subtramas são bastante embaraçosas, especialmente o affair de James Hurley com uma femme fatale de beira de estrada, o triângulo amoroso pateta entre Andy, Lucy e Dick, e o surto de Nadine que a faz voltar aos tempos de colégio. Esse último caso pelo menos evolui e dá esperanças a Ed Hurley e Norma Jennings, o casal perdedor que parece saído de alguma música de Bruce Springsteen.
Mas é quando Twin Peaks ganha uma nova ameaça concreta que a coisa engrena outra vez: Windom Earle, o ex-parceiro de Cooper, uma ameaça apenas mencionada até então, aparece na cidade e dá sentido ao restante da série com suas charadas, seus jogos e sua loucura meio Curinga. Ok, não é nada que se compare ao mistério da morte de Laura, mas pelo menos é um assunto mais interessante do que as tramóias de Josie Packard, Catherine Martell e Ben Horne. A morte de um personagem importante traz de volta Bob, o anão e o gigante, e a volta da turma do além também é um sinal de que, como diriam os trailers do Harry Potter, coisas ruins estão para acontecer.
Se a essa altura David Duchovny já sumiu, dois outros atores aparecem para apimentar a vida amorosa de Audrey Horne (Sherilyn Fenn) e Dale Cooper (Kyle MacLachlan), respectivamente: Billy Zane e Heather Graham. Os dois estão ótimos e qualquer motivo que aumente a participação de Audrey e Cooper em cena deve ser comemorado. Eu posso até reclamar, mas passaria mais umas 5 ou 6 temporadas só vendo Cooper tomando café e se encantando com a beleza do interior e Audrey saracoteando pelo Great Northern, mesmo sem trama nenhuma.
A partir daí, a segunda temporada deslancha de vez com a volta de bons roteiros, diálogos memoráveis e a direção de bons nomes como Todd Holland, Diane Keaton, James Foley e Uli Edel, todos abrindo espaço para a volta de David Lynch em grande estilo no antológico episódio final, o #29. Na época lembro que não gostei dele. Muitas pontas permanecem abertas para uma eventual terceira temporada que nunca foi feita, mas 15 anos depois eu finalmente compreendi que "Twin Peaks" não poderia acabar de outra maneira. Sem entregar nenhuma surpresa, digo que o episódio final de "Twin Peaks" é simplesmente desolador.
Entre outros motivos mais ligados ao enredo e aos destinos de muitos personagens importantes, o final da série é chocante por te tirar abruptamente de uma experiência única, como ser acordado por um despertador chato durante um sonho muito bom. Rever a série na sequência, aproveitando as vantagens do DVD, torna essa ruptura ainda maior.
Vou tentar explicar: existe uma cena no episódio #25 tão singela envolvendo Cooper, o Xerife Truman (o canastrão William Oatkean) e Gordon Cole (o próprio David Lynch, visitando sua criação) descobrindo o amor no Double R café, que me deixou feliz por dias. A cena é um primor de diálogos bem escritos, timing perfeito e atores à vontade em seus papéis. Entre tantas outras virtudes, "Twin Peaks" tem essa capacidade de fazer você se afeiçoar demais aos seus vários personagens, aos cenários e até aos cafés e tortas que eles consomem. Quando a série acaba da maneira que acaba, David Lynch te tira desse universo bucólico e te mostra que a vida, como a própria cidade de Twin Peaks, é cheia de podridão. Se a lição era essa, Lynch é mesmo um gênio, porque 15 anos depois eu fiquei perturbado novamente. O que me dá a certeza de que Laura Palmer e todo o resto do mundo podem morrer, mas Twin Peaks vai viver para sempre.
Os DVDs da segunda temporada trazem como extras entrevistas com vários diretores da série. No último disco, muitos atores nos dias de hoje falam sobre como foram parar em Twin Peaks e prestam suas homenagens a David Lynch, a maior ausência nos DVDs da primeira e da segunda temporada. Como a carreira da maioria deles não vingou, todos devem mesmo agradecer a Lynch pela oportunidade de marcar época na TV.
Abaixo, resgatei alguns textos que escrevi sobre "Twin Peaks" para a finada Saladestar, que jaz no Black Lodge junto de Laura Palmer.
Texto publicado em 27.09.04
Caixinha de surpresas
Primeira temporada de "Twin Peaks" é lançada em box especial.
Lá se vão 14 anos desde que o pescador Pete Martell descobriu o corpo da jovem Laura Palmer embrulhado em plástico às margens do rio que passa ao lado da Serraria Packard, na pequena Twin Peaks - cidade fictícia que deu nome a uma das mais importantes séries de TV de todos os tempos. Agora, chega ao Brasil a caixa de DVDs com a primeira temporada da série, para uma nova geração tentar descobrir quem afinal matou Laura Palmer.
A edição brasileira do box vem com uma vantagem em relação à americana: o episódio piloto, com aproximadamente 1h30 de duração, direção de David Lynch e cenas antológicas como a citada no começo deste texto. A embalagem luxuosa vem com 4 discos: o primeiro, com o piloto e o primeiro episódio; O segundo e o terceiro, com 3 episódios cada; E o quarto, repleto de extras.
São ao todo 7 episódios, produzidos após a aprovação do piloto pela rede ABC. Uma primeira temporada curta, porém marcante. Com o talento dos criadores David Lynch e Mark Frost, 7 episódios são suficientes para mostrar toda a rede de intrigas que envolve a cidadezinha e deixar qualquer espectador remoendo as unhas de curiosidade pra saber o que vem depois.
Em uma entrevista presente no disco de extras, Frost revela que procurou incluir no último episódio a maior quantidade possível de ganchos, para que a emissora bancasse a produção do segundo ano. Nem precisava tanto: com o sucesso inacreditável da série, a segunda temporada estava mais do que garantida. Afinal, nessa primeira temporada o espectador não tem a menor idéia de quem matou Laura Palmer.
Outros atrativos do box, além dos episódios devidamente legendados, são as introduções da Senhora da Tronco, a personagem bizarra que carrega um tronco no colo como se fosse um bebê. Suas pequenas reflexões antes de cada episódio, inéditas para o público brasileiro, são extremamente significativas para os fãs da série.
Cada episódio possui faixa de comentários de seu respectivo diretor. Ficou faltando apenas a palavra de David Lynch, que não dá as caras em nenhum momento. Para compensar, o disco de extras traz entrevistas recentes com quase todo o elenco, dando depoimentos sobre suas vidas pessoais e sobre suas participações na série. No extra mais divertido, o ator anão ensina como falar ao contrário na sala vermelha - um dos ícones de Twin Peaks.
Além da sentida ausência de Lynch, o box peca por não mostrar toda a importância da série e sua repercussão na época. A influência em séries como Arquivo X é rapidamente citada, mas não explorada. Uma pena, mas mesmo assim a caixa é item indispensável para colecionadores, fãs e até mesmo para aqueles que nem sabem quem diabos é Laura Palmer.
A saber: a segunda temporada, com 22 episódios, ainda não tem previsão de lançamento nem nos Estados Unidos. Ou seja: se você não assistiu na TV, prepare-se para viciar no universo de Twin Peaks e sofrer um longo período de espera até a conclusão da história.
Texto publicado em 23.06.03
Twin Peaks: a série que marcou época
A TV nunca mais seria a mesma depois da novela de David Lynch.
Nada era o que parecia ser em Twin Peaks. Aparentemente, uma série de TV sobre um crime misterioso em uma pacata cidadezinha americana. Na verdade, uma exercício cinematográfico com conteúdo capaz de subverter o tão amado estilo de vida americano em pleno horário nobre. O culpado de tal crime? David Lynch.
Depois de consagrar-se no cinema com filmes como O Homem Elefante e Veludo Azul, Lynch encontrou na TV a mídia ideal para destilar seu humor negro e desfilar sua galeria de personagens bizarros. Na TV, seu estilo surreal precisou se adequar às exigências do público médio americano, gerando um equilíbrio perfeito. Ao lado do produtor e roteirista Mark Frost, Lynch criou uma cidadezinha lá no norte dos EUA, próximo ao Canadá, onde o corpo de uma linda adolescente amanhece boiando às margens de um lago.
Laura Palmer (Sheryl Lee) é o seu nome. Bela, loira, rainha do baile de formatura, namorada do capitão do time de futebol, estudiosa, religiosa, dedicada - ou seja, um exemplo para a cidade. O crime choca Twin Peaks e parece ter ligação com outros assassinatos. O FBI entra no caso, enviando à cidade o agente especial Dale Cooper (Kyle MacLachlan), que possui métodos não muito convencionais de investigação e deixa a polícia local de cabelos em pé. Aos poucos, o agente Cooper ganha a confiança dos habitantes da cidade e começa a descobrir segredos sórdidos da vida de Laura Palmer e dos demais moradores. A doce Laura, quem diria, poderia estar tomando drogas, prostituindo-se, ligada a magia negra e participando de orgias com metade da população masculina local.
Mas não é só ela que tem segredos em Twin Peaks. Todos os moradores da cidade - sem exagero - parecem ter vida dupla e escondem segredos que podem ajudar o agente Cooper a encontrar o assassino. Por baixo de uma máscara de tranquilidade e felicidade, esconde-se uma rede de prostituição, tráfico de drogas, jogo, assassinatos, intrigas e mistérios sobrenaturais.
Imagine o impacto de uma história dessas em pleno horário nobre americano, acostumado a ver séries como Dallas. Twin Peaks estreou nos EUA pela rede ABC em 1990 e conseguiu 21% de audiência no país, onde as finais dos campeonatos raramente ultrapassam os 10%.
A febre Twin Peaks varreu o mundo. A frase "quem matou Laura Palmer?" entrou para a história. Formou-se uma legião de fãs que passou a cultuar o universo criado por Lynch. Até hoje, fanáticos nus se enrolam em sacos plásticos e se deitam nas margens do lago onde o cadáver de Laura Palmer foi encontrado. Twin Peaks também influenciou toda a produção televisiva que veio depois, definindo um novo padrão de qualidade praticamente cinematográfico à TV. A influência mais evidente foi a série Arquivo X, que contém inúmeras referências como os temas sobrenaturais, paisagens canadenses, florestas escuras, o genial agente do FBI com métodos pouco ortodoxos, além do próprio David Duchovny (o Fox Mulder) ter feito sua estréia televisiva em Twin Peaks.
No Brasil, a série chegou junto com outro divisor de águas da TV americana: o desenho animado Os Simpsons. Exibida pela Rede Globo nas noites de domingo, Twin Peaks chegou a conseguir 16 pontos no Ibope. Porém, a Globo mutilou a série, reeditou episódios e não exibiu tudo, desrespeitando seus inúmeros fãs. Anos depois, a Rede Record comprou os direitos de exibição e exibiu a série na íntegra.
Foram ao todo 29 episódios divididos em 2 anos. Com o mistério elucidado na metade da segunda temporada, a série perdeu seu impacto e suas novas subtramas não fizeram o mesmo sucesso, ocasionando o seu cancelamento. O último episódio deixava um final em aberto, pronto para uma terceira temporada que nunca foi feita.
Em 1992, Lynch lançou o filme Twin Peaks - Os Últimos Dias de Laura Palmer (disponível em vídeo e DVD), que mostra a última semana de vida de Laura com tudo que ela aprontou no período: sexo, drogas, alucinações e personagens do além. A crítica odiou, mas os fãs agradeceram. Além disso, a filha de Lynch, Jennifer, lançou o livro O Diário Secreto de Laura Palmer e no Brasil foi lançado um vídeo com o episódio piloto, acrescido de um final sem sentido e improvisado - mas que serve de consolo para quem nunca viu a série. Nos EUA, foi lançado há pouco tempo um box com toda a série em DVD. Espera-se que alguém tenha o bom senso de lançá-la por aqui também.
Grudento como mão suada depois da punheta
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*Pelo menos 105 mil fãs sabiam bem o que Lucas Cesar Lima Silveira estaria
fazendo naquele instante: o rapaz notificou o evento em sua página no Twitter, ...
37 minutos atrás

5 comentário(s):
acho tanto o episódio final quanto o filme obras primas, o seriado no todo salva-se pelo início, os personagens e os episódios que o Lynch dirigiu
os dois livros lançados (da Laura e do Dale) são bem legais
"salva-se" é menosprezar demais.
o diário da laura achei bem chato. o do cooper eu nunca achei pra vender.
...e não me venha com links pra download dele. hehe
Deniiise não pode sumir de um seriado dessa forma. Exijo uma série nova, só com Denise!
(tô ansiosa pelos episódios finais)
Quando vi a série exibida pela Record (em veagáésses podres que uma amiga tinha gravado), achei absolutamente detestáveis essa meia dúzia de episódios que voce falou. Eu dormia na maioria deles. Talvez hoje eu os aguente melhor, mas realmente não eram necessários (se a 2a temporada tivesse "apenas" 16 episódios, seria perfeita). O final é uma obra-prima filhadaputa, coisa que nunca mais foi feita na TV, na minha opnião, superior até ao piloto. Gostaria muito que Lynch voltasse à TV. Até do mal-falado Hotel Room eu gosto.
Ah, e estou deveras empolgado porque hoje descolei as duas primeiras temporadas de SPACED, a série inglesa do Simon Pegg e do Edgar Wright.
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