
A morte da estrela pornô Marilyn Chambers reacendeu o debate sobre a importância da indústria pornográfica no meio cultural, educacional e sociológico deste mundo globalizado. Mentira, não reacendeu nada, eu só precisava de uma desculpa pra falar disso.
Nunca vi nenhum filme da Marilyn Chambers. Não por algum motivo ideológico e moralista, não senhor. É que nunca tive acesso mesmo. Eu bem que gostaria de ter visto. Você, criança, já deve ter ouvido falar na dificuldade que era conseguir material pornográfico nos tempos antigos, tipo a primeira metade dos anos 90. Todas as lendas são verdadeiras: não era fácil como é hoje. Ainda mais em Leme-SP, a 188 km da capital.
Em tese, as revistas masculinas só eram vendidas para maiores de idade. Os filhos cujos pais assinavam Playboy automaticamente se tornavam populares e ganhavam vários amigos. As bancas menores das vilas longínquas tornavam-se ponto de encontro da molecada que conhecia o vendedor. Porque a banca maior da praça principal era um local muito visado. Além disso, o Rubão, dono da banca, era amigo de todos os nossos pais e poderia nos entregar a qualquer momento. E veja, ainda estou falando das revistas de mulher pelada. Imagine os filmes pornôs.
Só que chega uma hora na vida do moleque adolescente que a revista não é mais suficiente. Nem os filmes da Sexta Sexy, que mais pareciam catálogos da indústria de silicone. O que a câmera não mostrava, da cintura pra baixo, era justamente o que mais interessava.
Não vamos culpar os pais ou os professores, por favor. Sem hipocrisia aqui. Ninguém quer ter aquela conversa constrangedora com o pai, que se senta na ponta da cama e diz "você está na idade de aprender algumas coisas". Ou corta o papo e leva o moleque direto pro puteiro, pra aprender na prática. Tudo isso só me lembra o pai de "American Pie". O pai, não a pie. Você entendeu.
Minha esforçada professora de biologia até que tentava. As poucas aulas de educação sexual acabavam em risos toda vez que ela pronunciava a palavra "pênis". No final das contas ela meio que desistia e só reforçava a mensagem principal que era "por favor, usem camisinha". Nem chegamos na clássica aula de vestir camisinha em uma banana. Talvez por isso um colega engravidou a empregada, mais ou menos na mesma época. Duplo azar: ela teve gêmeos.
É para ocupar essas lacunas da educação que existe a indústria pornográfica. Os primeiros filmes pornôs que você vê na vida são extremamente educativos. Não que você ache normal as performances dos atores profissionais, veja bem. É como ir a um nutricionista, ele vai te mandar cortar as frituras e os doces e o álcool, mas você sabe que não precisa seguir tudo à risca.
Os primeiros pornôs ensinam qual a função de cada um no processo. Onde as coisas se encaixam. Coisas que os livros não mostram. Ver imagens de sexo em um livro educativo é como ver aquelas ilustrações do que fazer caso o avião caia no mar. Ninguém mantém aquela calma colocando a bóia e a máscara de oxigênio, como se estivesse acostumado a fazer isso todo dia.
Os animais já nascem sabendo, porque o instinto os guia. O ser humano não, ele precisa ser melhor orientado. Porque os animais não têm amigas fofoqueiras, não vão sair comentando sua performance, dando notas no caderninho, discutindo a relação. E outra: animais só estão ali pra procriar. Não tem preliminares, por exemplo.
Então você assiste e aprende e não precisa passar por momentos embaraçosos com ninguém e nem vai rir, porque em filmes pornôs ninguém usa a palavra "pênis". Não é um manual maçante do tipo "now you put your penis here", e sim o linguajar das ruas, o "fuck me baby". Assim o filme pornô cumpre seu papel de garantir a perpetuação da espécie.
Já tenho mais de 30, posso contar isso aqui sem medo de minha mãe ler. Eu aluguei alguns poucos filmes pornôs, mas morri de vergonha em todas as vezes. Provavelmente aluguei alguma sequência de "Máquina Mortífera" junto, pra disfarçar. Igual meu amigo que foi comprar camisinha no supermercado pela primeira vez e pegou um pacote de bolacha de morango junto. No meu caso não deu muito certo, porque eu era rato de locadora e o balconista sabia que eu não era adepto do lado pornô da força. Então ele fez questão de me avisar: "esse aqui é pornô, viu?". Ah vá, tiozão. Não me diga. Fala mais alto praquela menina ali atrás ouvir.
Não lembro que filme era esse, mas lembro que tinha a Savannah, a maior estrela pornô da época. Disso eu sabia porque lia nos guias de vídeo da Set e da Nova Cultural (do Rubens Ewald Filho), que inclusive citavam Marilyn Chambers como referência. A Savannah era a Sylvia Saint da época, chegou a ter casos com celebridades como Axl Rose e Charlie Sheen e depois se matou, tadinha.
O único título de filme pornô que me lembro dessa fase é o clássico "Bacanal em Malibu", que me marcou bastante porque um amigo (o mesmo da bolacha de morango) dizia "Bananal em Malibu". Ele não tinha a menor idéia do que era um bacanal. Eu também não, mas pelo menos eu fingia ter. Devia ser algo bacana, não?
Esse VHS rodou na mão da turma toda. Um outro amigo alugou numa locadora pequena de uma vila longínqua, depois de xavecar a balconista e fazer uma ficha fake com o nome, o endereço e o telefone do moleque mais zé roela da cidade. "Bacanal em Malibu" passou de mão em mão e jamais foi devolvido. Se aquela locadora ainda existir, eles devem estar procurando a fita até hoje. Imagine a multa, mais de 15 anos depois.
Veja, para ter acesso a pornografia, você tinha que desrespeitar a lei. E ter bons amigos. Amigos de verdade, que sabiam manter segredo. Amigos iguais aqueles citados pelo Jon Bon Jovi no clássico "Blood on Blood". Only brothers understand. Hoje é tudo tão sem graça que os amigos nem se ajudam mais. Eles se filmam comendo alguém, sobem no YouPorn e passam o link pros conhecidos do Orkut, pra ostentar a conquista. Acabou o romantismo da pornografia.
Essas são as minhas lembranças, os doces momentos de aprendizado. A partir daí, não é mais aprendizado, é safadeza mesmo. Nunca fui grande consumidor desse segmento, mas não critico quem é. É mais saudável (e barato) consumir pornografia do que consumir putas. Acho até que, se mais gente consumisse, mais gente viveria melhor, mais satisfeita, se é que você me entende. Imagine aquela tiazona amarga que nunca teve um orgasmo na vida. Imagine aquele tiozão estressado que nunca soube agradar uma mulher na cama. Meia horinha de Buttman poderia resolver isso.
Sem esse papo de gente mal amada que ataca a pornografia como "exploração da mulher" e blablabla. Homens, mulheres, gays, lésbicas, cavalos e bezerros estão todos sendo "explorados" igualmente para um bem maior - e ganhando dinheiro e sobrevivendo e se divertindo com isso. Até os filminhos caseiros amadores ensinam alguma coisa. Se a menininha deixou o namorado filmar e a obra foi parar na internet, ela que aprenda a selecionar melhor seus parceiros. Como Darwin já dizia.